Resultados do GovTech Brasil 2018

10

países
representados

13

PALESTRANTES
INTERNACIONAIS​

35

PALESTRANTES
NACIONAIS

2

DIAS
DE EVENTO​

100%

TRANSMITIDO
AO VIVO

1

AGENDA GOVTECH
PARA O BRASIL

8 diretrizes principais para a transformação digital

1. Foco no cidadão

1. Foco no cidadão

A transformação digital de um governo só será efetiva se partir da premissa de que a plataforma tecnológica deve servir, em primeiro lugar, ao cidadão. O cidadão deve ser considerado como um cliente do governo. Uma abordagem com foco no cidadão tem como objetivo alinhar políticas e práticas governamentais com as necessidades das pessoas. É preciso abandonar a lógica tecnocrática na qual se desenha serviços centrados nos problemas do governo e, no lugar, adotar como premissa que toda ação deve facilitar a vida e a interação do cidadão com o governo. Ao pensar nesses processos, os gestores públicos precisam colocar-se no lugar das pessoas, compreendendo suas necessidades de forma profunda e empática, para então construírem a forma como se daria essa interação. Quando se trata de digitalizar serviços para facilitar a vida do cidadão, alguns avanços têm ocorrido. No entanto, o governo brasileiro tem trazido, para o campo digital, o mesmo problema de burocracia que observamos no âmbito físico: centenas e centenas de sites e aplicativos, com muitos processos, etapas, e repetições. Isso é nada mais do que digitalizar a burocracia, enquanto o que precisamos é mudar totalmente a lógica dos processos. Devemos sempre nos lembrar que, para o cidadão, só existe um governo. Todo o processamento de informações e coordenação de ações por parte de órgãos diferentes deveria acontecer de forma invisível para o cidadão. Enquanto isso, os canais e pontos de interação entre governo e cidadão, sejam eles on ou off-line, devem ser intuitivos e sem de burocracia. Hoje em dia, essa mudança de paradigma é possível porque a tecnologia permite que todo o processamento de informações aconteça no back-office, de forma automatizada, sem onerar o cidadão ou funcionários públicos.
2. Equidade

2. Equidade

A universalização de serviços digitais passa por uma questão fundamental: não basta construir serviços digitais em torno do cidadão caso ele não tenha acesso à internet. Em suma, se o governo vai atender a sociedade de forma digital, 100% da população deve ter acesso a internet. Caso a transformação não aconteça com equidade, corremos o risco de aumentar a desigualdade. A tecnologia é uma ferramenta e, se não tivermos a clareza de que seu propósito é melhorar a vida dos cidadãos, ela pode somente reproduzir, no ambiente digital, as diferenças sociais que marcam o Brasil. Hoje, mais de um terço dos brasileiros acima de 10 anos não está conectado, o que representa 63,3 milhões de pessoas, e concentra-se nas classes C, D e E (PNAD/IBGE 2016). Regionalmente, há uma discrepância também: na região nordeste, que tem o pior resultado, chega a 42% o grupo de pessoas que não têm acesso à rede, e a maior parte dessa população está em áreas rurais (Cetic 2017). Entre os principais motivos da desigualdade no ambiente digital estão: a falta de recursos, de conhecimento sobre tecnologia e de interesse por conectividade. Para os 20% mais pobres, o custo de um plano de 4G representa na média 5% do seu salário (World cellular information service study, 2018), e o custo de compra de dispositivo smartphone 10,15% da renda anual (Ovum, TMT Intelligence, 2017). Também relacionado à desigualdade econômica, outro dado chama atenção: 29% dos brasileiros são analfabetos funcionais (INAF 2018) e, por isso, não são capazes de ingressar no universo digital. Além disso, apenas 20% das pessoas com mais de 60 anos usam tecnologia (PNAD/IBGE 2016). Por tudo isso, tornam-se urgentes iniciativas que garantam o acesso universal à rede, assim como à educação digital. O governo deve investir para disponibilizar à sociedade preços menores e velocidades maiores, ampliando o alcance de sua política digital. Crianças, idosos, residentes rurais e pessoas de renda baixa devem ser públicos estratégicos da política de universalização ao acesso.
3. Dados estruturados para serviços unificados

3. Dados estruturados para serviços unificados

Na era digital, dados são considerados “o novo petróleo”, e representam a base de uma política digital. Quando bem utilizados, permite que o governo obtenha uma compreensão mais clara da realidade e promova melhorias com maior agilidade e responsividade. Governos, em sua atuação, já coletam e armazenam centenas de milhares de dados de seus usuários. Mas se os dados não estiverem sistematizados, interligados e em formato aberto, não é possível cruzá-los e analisá-los para gerar conhecimento. Temos no Brasil muitas fontes diferentes de dados, que frequentemente não conversam entre si, são repetidos e até conflitantes. Trata-se de uma verdadeira mina de informações desintegradas -- muito menos valiosas do que poderiam ser. Como exemplo, na área da saúde, apenas 38% dos médicos usam rotineiramente ferramentas eletrônicas de administração e 27% acessa dados clínicos de outros sistemas de saúde (Accenture 2015). Em uma arquitetura de dados ideal, deve-se buscar uma estrutura de interação entre as bases, tanto na esfera pública - municipal, estadual e federal -, quanto na esfera privada, respeitando o uso de dados abertos para o compartilhamento seguro entre diferentes sistemas. E colocando o cidadão como o principal gerenciador das suas informações. Isso otimiza esforços do governo e também do cidadão, que não precisa informar seus dados pessoais redundantemente toda vez que interagir com agências diferentes. Os dados são descentralizados dentro de uma infraestrutura que por sua vez assegura a unificação de todos os serviços disponíveis de um país. Tudo isso deve ser acoplado de políticas de transparência e privacidade, garantindo a segurança do usuário.
4. Ecossistema favorável

4. Ecossistema favorável

O governo não conseguirá se tornar digital atuando sozinho. Todas as partes interessadas precisam participar da identificação dos problemas e também de suas soluções. O ecossistema de inovação e tecnologia deve ser compreendido por quatro setores: privado, público, academia e terceiro setor. O setor público deve ser responsável pelo capital, pelo financiamento, pela visão do que se almeja construir e pelas leis, atuando como um habilitador do ecossistema. O setor privado envolve investidores, empreendedores e startups. As universidades são responsáveis pela formação de novos talentos e pela produção e difusão de conhecimento e tendências. O terceiro setor é propositor e vigilante de políticas públicas. Na história recente do Brasil temos visto uma interação pouco transparente entre o público e o privado, a desconexão da academia com o mercado de trabalho, a falta de incentivo para o desenvolvimento de tecnologias e inovações, pouca participação social na formulação de políticas públicas, e um terceiro setor fragilizado. A inovação é resultado de vários fatores como investimento, livre concorrência, capacidade técnica, mercado e mudança de cultura. A velocidade da transformação digital depende da sinergia entre os atores envolvidos. O governo não foi desenhado para se transformar constantemente, por isso a interação entre governo e setores menos engessados trará agilidade para a transformação digital.
5. Liderança e governança do processo de transformação

5. Liderança e governança do processo de transformação

A liderança tem um papel fundamental em pautar a visão de longo prazo e ditar o ritmo da mudança que se pretende, enquanto que a governança é o que determinará a capacidade dos governos de concretizar a visão, com bom planejamento, execução e avaliação. Do ponto de vista tecnológico, uma transformação digital de um país pode ser feita em apenas alguns meses. Já do ponto de vista político, pode levar anos de articulação. É comum também que a transição de governo jogue por terra avanços que são de médio e longo prazo, atrasando o plano e desperdiçando recursos. O governo federal lançou em 2018 a Estratégia Nacional para a Transformação Digital (E-Digital), que possui uma visão de longo prazo para a economia digital. Agora, para que esta visão se torne em realidade, é preciso desdobrar a estratégia em um plano de metas com prazos definidos e um plano de ação com responsabilidades claras. A receita geral é: a criação de uma agenda clara com prioridades, de modo que todos saibam o que precisam fazer; envolver todos e garantir que os funcionários públicos se sintam empoderados, e não ameaçados pelas mudanças ocorridas; o diálogo constante com o ecossistema local; e uma liderança forte, orientada para uma continuidade de políticas públicas para além dos mandatos de um ou outro governo.
6. Combate à burocracia

6. Combate à burocracia

A digitalização de serviços do governo não pode ser a simples transferência de processos burocráticos presenciais ou físicos para sua versão online. Um governo digital deve usar a tecnologia para combater a burocracia. Tecnologias ajudam a agilizar procedimentos e eliminar processos, com o objetivo de facilitar transações entre pessoas ou empresas, fomentar a competitividade, alavancar o empreendedorismo e estimular o desenvolvimento do país. Segundo o relatório Doing Business 2018, o tempo perdido com burocracia custa mais ao Brasil do que impostos. Em média, abrir uma empresa no Brasil leva 80 dias. Devido à complexidade tributária, o processo de pagar impostos é o mais demorado do mundo, consumindo 2.038 horas por empresa por ano. Até agora, estamos nada mais que digitalizando a burocracia, e não eliminando-a. Criou-se o e-título de eleitor, e-CPF, e-Carteira de trabalho, e-CNH e, em breve, a CNI (Certidão Nacional de Identidade, que não unifica nenhum dos outros documentos). Além da complexidade desnecessária e repetição de esforços, esta quantidade de documentos e órgãos envolvidos facilita a fraude de identidade. Uma das soluções fundamentais para reduzir a burocracia é a Identidade digital única, que é uma base de cadastros simples e seguro que alimenta uma série de plataformas de serviços desde declaração de imposto de renda a registros de celulares a compra de bilhetes de transporte. Lembrando: A projeção brasileira é que enquanto um atendimento presencial tem um custo médio de R$ 43,68, o atendimento online pode chegar a R$ 1,20 -- uma economia de 97% (Estratégia Brasileira de Transformação Digital, 2018).
7. Educação para a era tecnológica

7. Educação para a era tecnológica

Para inovar e ser um país digital, a educação precisa proporcionar às crianças e jovens os conhecimentos e habilidades necessárias para aproveitarem as oportunidades do mundo contemporâneo. Quando bem exploradas e inseridas de forma transversal no plano pedagógico, as tecnologias podem auxiliar no desenvolvimento da autonomia, autoconfiança, criatividade, espírito empreendedor, inteligência social e competência cultural, entre outros valores necessários para os líderes do futuro. Enfrentamos no Brasil uma crise de aprendizagem. No final do ensino médio, só 7% dos alunos sabem matemática no nível que se espera dele (SAEB/Prova Brasil 2015), e 27,% evadiram da escola (Políticas públicas para a redução do abandono e evasão escolar, 2017). Este é um dos sintomas de uma educação que não atende às necessidades e expectativas dos jovens de hoje. Habilidades do século XXI, como criatividade, resolução de problemas, pensamento crítico, raciocínio lógico e linguagens de programação devem entrar no modelo de ensino proposto por governos. Isso implica uma profunda transformação de instituições de ensino, com a criação de espaços maker, o ensino baseado em projetos e não mais em aulas expositivas, entre outras iniciativas. Além disso, quando olhamos para o mercado de trabalho, o Brasil ainda carece de mão de obra especializada na área de tecnologia. Até 2019, teremos uma demanda não atendida por 161 mil profissionais da área de Tecnologia da Informação (Cisco, Networking Skills in Latin America, 2016). Precisamos investir em ter cada vez mais talentos nessa área para impulsionar o desenvolvimento e crescimento do país.
8. Regulação

8. Regulação

Para que um governo seja digital é fundamental que o ambiente regulatório ofereça a segurança jurídica para o desenvolvimento contínuo do ecossistema. Para começar, toda lei ou instrumento administrativo que dificulta a inovação deve ser revisado. As regras do jogo devem permitir que os agentes de transformação possam pilotar, pivotar e contratar inovação. Ao mesmo tempo, a regulação deve abordar temas como privacidade de dados e a ética na era digital. A contratação de empresas pela gestão pública sempre foi um tema complexo e espinhoso. Quando falamos de contratação de soluções tecnológicas inovadoras, então, o cenário atual se torna completamente inadequado. Além do ambiente regulatório brasileiro não atender as demandas de contratação de serviços inovadores ele também penaliza o servidor público que precisa tomar decisões, muitas vezes com informações incompletas, e não tem espaço para errar, muito menos para testar soluções dentro do governo. O melhor caminho é criar condições para regulamentar e proteger gestores que inovam, sem jamais perder de vista a responsabilização pelo mau uso de recursos. Os órgãos de controle também não podem ser entraves para a inovação, mas sim devem estar junto com os gestores desde os primeiros passos da transformação digital, garantindo assim a segurança jurídica, transparência e responsabilidade.
9. Mente inovadora nos governos

9. Mente inovadora nos governos

Por último, mas igualmente importante, vem a transformação necessária ao capital humano dos governos. Para além de todas as mudanças listadas acima, a agenda digital do país só será cumprida com a capacitação e o desenvolvimento de quem exerce o poder, em todas as esferas. A revolução digital criou situações e desafios que legisladores e juízes, por exemplo, jamais poderiam ter previsto, como questão da privacidade de dados e a contratação de inovações, que é algo que não foi previsto originalmente nas leis de contratação. É importante, portanto, preparar os governantes, legisladores e juízes para atuarem nesse cenário complexo. A tecnologia evolui em velocidade exponencial, o que significa que nosso contexto está mudando sempre, e cada vez mais rápido. Precisamos preparar nossos líderes para trabalhar em um ambiente de incertezas. É necessário promover os valores, estruturas e comportamentos que permitam a flexibilidade para o governo se reinventar constantemente. Trata-se, portanto, de uma mudança cultural. Promover uma cultura organizacional de empreendedorismo, tolerância ao risco, segurança para testar, colaboração, transparência, velocidade, cabeça de dono, protagonismo, abertura ao novo, e assim por diante, é essencial para a transformação digital do Brasil.

Painéis

Dia 1 - Mapeando o cenário internacional
Apresentação
Apresentação

O evento GovTech Brasil 2018 foi criado para reunir pessoas e instituições em torno de uma ideia central: imaginar e construir uma agenda para transformar o Brasil em um país digital em um futuro próximo. A emergência de novas tecnologias como blockchain, inteligência artificial e robótica tem possibilitado ao redor do mundo maior eficiência e transparência na realização de políticas públicas e no cuidado da relação entre governos e seus cidadãos. Bem aplicadas, essas tecnologias colocam-se a serviço da redução de burocracias, de maior proximidade entre governo e cidadão e da melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Os curadores do evento foram Letícia Piccolotto, presidente executiva da Fundação BRAVA e fundadora do BrazilLAB, Luciano Huck, empreendedor e apresentador de televisão, e Ronaldo Lemos, fundador e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro. O conteúdo debatido ao longo das quase 18 horas de palestras e painéis está condensado neste registro narrativo – que traz um resumo do conjunto de temas abordados em cada sessão do evento. A intenção de ambos os registros, audiovisual e textual, é a de possibilitar que o conteúdo gerado no evento esteja acessível para uma parcela significativa de pessoas no Brasil. O Brasil é um país que enfrenta desafios complexos, muitos dos quais são ainda do Século XVIII, como saneamento básico, ao mesmo tempo em que também precisa enfrentar os desafios do Século XXI, com uma sociedade globalizada e conectada. Antes de propor mudanças, portanto, é necessário realizar um diagnóstico sobre o que é possível, alinhando as expectativas na direção de uma agenda positiva para o país. Neste contexto, uma preocupação surge como constante: a de que os cidadãos sejam mais do que meros espectadores, mas também participantes desse processo. Todos os governos do mundo se transformarão em plataformas tecnológicas. Esse já não é um debate sobre possibilidades, se vai ou não acontecer. A tecnologia da informação já não cabe mais em apenas um departamento ou ministério, tampouco pode ser relegada a uma empresa. A tecnologia será o governo e o governo será exercido pela tecnologia. Atualmente a sociedade civil brasileira está muito mais conectada do que o governo; e se o governo não está mais conectado com as necessidades de seus cidadãos, então ele deixa de ser governo. Desse modo, o desafio é como construir essa plataforma tecnológica de modo que ela melhore o serviço público e trabalhe a serviço da sociedade. Diz-se que “a informação é o novo petróleo”. Para abrir os debates do GovTech Brasil 2018, foi lançada a pergunta: como o Brasil está cuidando dessa riqueza? E nos anos seguintes, como planeja cuidar?
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Como a Estônia construiu uma sociedade digital
Como a Estônia construiu uma sociedade digital

A Estônia é um país do norte europeu com aproximadamente 1,2 milhão de habitantes. Encontra-se separado da Finlândia pelo Golfo da Finlândia. Nas palavras de Toomas Hendrik Ilves, ex-presidente da Estônia e palestrante responsável por apresentar a revolução digital vivida em sua nação, os dois países são “primos”, tal como acontece com Portugal e Espanha. Embora os idiomas sejam diferentes, finlandeses são capazes de entender estoniano e vice-versa.

Até 1938, o produto interno bruto (PIB) de ambos os países era igual. Desde a Segunda Guerra Mundial, a Estônia foi invadida pelos soviéticos, depois pelos nazistas e então novamente pelos soviéticos, que permaneceram no poder até 1991. Em 1992, o PIB da Estônia era de $ 2.832, contra $ 22.337 da Finlândia, uma diferença de quase dez vezes. Essa comparação era um convite à ação. De um lado do Golfo, a Finlândia tinha empresas de tecnologia e comunicação como a Nokia. Do outro, a Estônia ainda lidava com telefones fixos. Há 20 anos, a Estônia ainda não tinha acesso à internet. De lá para cá, tornou-se país referência em governo digital. Os cidadãos podem acessar a maioria dos serviços públicos online, sem a necessidade de interagir diretamente com outras pessoas. Abertura de empresas, registros de nascimentos e óbitos, todos esses processos são digitalizados. O processo de digitalização do serviço público na Estônia foi facilitado pelo fato de se tratar de um país pequeno, sem dúvida. Porém, o desafio não é tecnológico. Nós já dispomos da tecnologia necessária para realizar essa transformação de forma escalável – e seu custo de implementação está muito mais acessível do que já foi. Se a tecnologia deixou de ser um obstáculo, o que é preciso, antes de qualquer outra coisa, é vontade política. É necessário colocar em ação novas políticas, leis e estruturas regulatórias que possibilitem o planejamento, o desenvolvimento e a aplicação de recursos tecnológicos na criação dessa plataforma digital para o país, sem perder de vista o fato de que essa plataforma deve estar a serviço do que as pessoas e empresas buscam, não do que burocratas do Ministério de Finanças desejam. A tecnologia atual nos permite desviar da burocracia como a conhecemos no Brasil. Em vez de processos sequenciais, é possível realizar processos paralelos. Isso significa que deixa de ser necessário levar um papel para cada escritório ou departamento assinar e reconhecer, pois todos podem ter acesso ao documento ao mesmo tempo, agilizando os procedimentos. Na Estônia, uma nova empresa pode ser registrada em 15 minutos, o que traz velocidade e poupa dinheiro. Outra forma de economizar tempo e recursos é a regra “just once” (“apenas uma vez”) adotada pelo governo estoniano. Os cidadãos jamais precisam inserir duas vezes a mesma informação em um formulário. Deste modo, se o sistema já tem seus dados de identificação, endereço, telefone etc., não é necessário redigitá-los para solicitar serviços diferentes, produzindo uma economia de tempo significativa. Para pavimentar o caminho rumo à digitalização, o governo da Estônia contou com o apoio de bancos e empresas, também beneficiados pela agilidade, economia e ganhos que o novo sistema promoveu. O primeiro passo foi garantir que todas as escolas estivessem online, trazendo o conhecimento sobre tecnologia desde cedo para a vida das crianças. Em seguida, buscou-se facilitar o acesso para todas as pessoas, incluindo idosas, ensinando-as como utilizar computadores. No centro dessa revolução tecnológica está a identidade digital, cuja função é garantir que a pessoa seja quem ela diz que é e lhe conceder acesso aos serviços públicos. De acordo com a experiência de Hendrik, uma identidade digital precisa ser segura e única, ter eficácia legal, usar autenticação com pelo menos dois fatores (algo que você sabe somado a algo que você possui), ser encriptada de ponta a ponta e amplamente difundida, se não obrigatória, ainda que seu uso possa ser voluntário. A arquitetura de informação para guardar esses dados também precisa ser segura. Na Estônia, é utilizado um sistema chamado X-Road, uma camada de dados distribuídos sem um banco de dados central e cujas informações só podem ser acessadas com a autenticação de dois fatores. Cada agência governamental administra seus próprios dados e acessa aqueles que lhe são pertinentes conforme a necessidade e as possibilidades de acesso oferecidas pelo sistema. Isso garante privacidade, evitando que pessoas não autorizadas possam ver ou copiar os dados de outras pessoas, e também integridade, de modo que os dados não possam ser alterados maliciosamente. Atualmente, a Estônia trabalha em uma integração tecnológica com a Finlândia. Segundo Hendrik, o processo tecnológico de implementação do sistema levaria apenas uma semana para ser realizado. Já a parte política, pelo menos cinco anos.
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Plano estratégico do Uruguai para se tornar digital
Plano estratégico do Uruguai para se tornar digital

José Clastornik foi nomeado diretor da Agência de Governo Eletrônico e Sociedade da Informação e do Conhecimento desde sua concepção, em 2007. Seu trabalho foi a promoção da “Agenda Uruguai Digital”, consolidando seu país como o mais avançado digitalmente na América Latina. Em sua palestra, Clastornik concentrou-se em apresentar indicadores e pontos centrais da transformação do Uruguai em um país digital, atentando para a organização de diversos setores do governo para realizar essa mudança de forma inclusiva e sustentável para que a sociedade como um todo pudesse se beneficiar com o uso inteligente das tecnologias.

O primeiro princípio do projeto do Uruguai é o de igualdade, uma parte fundamental do que vem sendo desenvolvida. Essa igualdade é garantida, por exemplo, por meio do acesso gratuito universal à internet por linha telefônica, em um contexto em que 85% da população utiliza internet diariamente – e tem acesso gratuito se possuir um telefone. O governo tem investido para disponibilizar à sociedade preços menores e velocidades maiores, ampliando o alcance de sua política digital. A educação é outro ponto fundamental do plano estratégico do Uruguai. Todas as crianças têm um computador pessoal com acesso à internet e aprendem na escola temas como robótica, programação e pensamento de computação. Já colocando em ação as novas tecnologias, o aprendizado de língua inglesa ocorre por meio de videoconferências, o que significa que a maior parte dos professores sequer estão no país. No contexto da educação, as tecnologias digitais tornam mais fácil realizar um acompanhamento sobre o desempenho escolar, a evasão e outros desafios correntes. Em termos de bem-estar e economia, outras ações podem ser consideradas: aposentados de baixa renda recebem tablets com acesso à internet, existe um registro nacional de saúde, bem como prescrição online de remédios, e é feito um rastreamento agropecuário, facilitando a identificação e redução de epidemias. Assim como na Estônia, o Uruguai também tem trabalhado com uma identidade digital – emitida no momento em que as crianças nascem. Essas identidades digitais contém uma assinatura digital em seus cartões e o próximo passo será colocá-la na nuvem. Todos os serviços públicos podem ser iniciados online e atualmente metade deles podem ser realizados inteiramente pela internet, por meio de um único site, que funciona como ponto de acesso para o cidadão interagir com o governo. Essa revolução de informação requer repensar a estrutura do governo e dos registros de dados. Como receita geral, Clastornik sugere que se crie uma agenda clara com prioridades, de modo que todos saibam o que precisam fazer. Essa é uma transformação para ser vivida a partir de um diálogo constante com o ecossistema local e por meio de uma liderança forte, orientada para uma continuidade de políticas públicas para além dos mandatos de um ou outro governo.
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Traduzindo a experiência da Estônia e do Uruguai para o Brasil
Traduzindo a experiência da Estônia e do Uruguai para o Brasil

Após as apresentações sobre as experiências de digitalização do governo empreendidas na Estônia e no Uruguai, ambos os palestrantes retornaram para dialogarem sobre quais passos são necessários para que o Brasil também construa um governo conectado com as tecnologias digitais. O painel contou com a moderação do Milton Seligman, do Insper. A primeira questão diz respeito a quem deve liderar uma agenda como essa. Tanto Hendrik quanto Clastornik concordaram que a tomada de decisão deve vir dos altos escalões de poder, uma vez que é uma reforma estrutural que atinge todos os âmbitos do governo e que, portanto, não pode ser pensada apenas setorialmente. Para que isso ocorra, é essencial haver uma comunicação horizontal, aproximando e incluindo todos os atores envolvidos no processo de construção desse novo modelo de governo.

Esse processo vai além do poder Executivo, incluindo também o Legislativo e o Judiciário, uma vez que todas as esferas costumam ter pouco preparo ou conhecimento para lidar com as novas tecnologias. O mundo digital criou situações e desafios que legisladores e juízes jamais poderiam ter previsto – como a relação com privacidade de dados quando empresas de telefonia são capazes de localizar geograficamente as pessoas a qualquer instante. É importante, portanto, preparar os legisladores e juízes para atuarem nesse cenário complexo. A relação com os cidadãos também precisa ser considerada. Na Estônia, por exemplo, os cidadãos mantêm uma desconfiança em relação aos políticos, porém ao mesmo tempo acreditam e confiam no sistema – e o sistema é o governo. Para garantir que essa confiança seja estabelecida, é essencial garantir e facilitar o acesso dos cidadãos aos mais diversos serviços, de prescrições médicas online a votação. A tecnologia digital permite que isso seja feito sem demandar a presença física das pessoas. Essas transformações também acontecem na área da educação, mas, assim como com os poderes Legislativo e Judiciário, é necessário que todos os envolvidos estejam preparados para modificar as formas tradicionais de trabalho, com as quais já estão acostumados, reconhecendo e acolhendo a tecnologia como uma ferramenta capaz de ampliar a qualidade dos serviços prestados. Sem esse alinhamento entre os sistemas e os professores, por exemplo, a tecnologia acaba sendo apenas uma ferramenta subutilizada e até mesmo apontada como ineficaz.
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BrazilLAB: Lançamento 2018
BrazilLAB: LANÇAMENTO 2018

Para apresentar e lançar a terceira edição do programa de aceleração do BrazilLAB, Letícia Piccolotto, , fundadora do hub de inovação em GovTech, trouxe uma série de dados sobre a situação da tecnologia digital no Brasil em relação ao cenário mundial. A pergunta norteadora de sua fala foi: é possível promover um governo digital, transparente, democrático e eficiente?

Para defender sua resposta, um claro sim, Piccolotto trouxe boas notícias: o Brasil subiu cinco posições no ranking do Global Innovation Index em 2018. Esse resultado se deu por conta do investimento que o governo federal fez em centros de pesquisa e também de parcerias com incubadoras e parques tecnológicos. Nos últimos 18 anos, o governo federal investiu em marcos importantes para o avanço dessa agenda. Em 2000, houve o marco do governo eletrônico; em 2014, o marco civil da internet; em 2016, a estratégia de governança digital e a lei de inovação, importante para se criar um arcabouço legal para promover a inovação em estados e municípios; em 2018, já é possível acompanhar casos de aplicação da tecnologia para aprimorar serviços públicos em estados e municípios. Esses avanços, contudo, não são suficientes. O Brasil segue enfrentando uma série de desafios, como a exclusão digital. Conforme pesquisa realizada pelo Banco Central em 2016, 60,9% da população brasileira utilizava a internet, contra 33,8% em 2008. Isso significa que 39% da população não  acessa a internet. Para fins de comparação, em 2016, 78,7% da população dos países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico utilizava a internet, 57% da América Latina e 45,8% do restante do mundo. Essa exclusão é concentrada nas classes C, D e E. O Brasil é considerado o quinto país mais empreendedor do mundo, porém de subsistência, não tanto de tecnologia. Esse perfil aponta para uma solução: empreendedores podem ser protagonistas dessa transição do Século XVIII para o Século XXI, organizando-se junto à população para forçar o governo rumo à inovação.
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Israel: a colaboração bem-sucedida entre o governo e o ecossistema de inovação
Israel: a colaboração bem-sucedida entre o governo e o ecossistema de inovação

Dan Balter, Global Managing Partner da Duco e ex-vice-presidente da StartTau, o Centro de Empreendedorismo da Universidade de Tel Aviv, falou sobre a exitosa relação entre governo e o ecossistema de startups em Israel, compartilhando como sua nação se tornou referência mundial no campo da tecnologia.

Seu primeiro argumento foi o de que, apesar de muitos governos buscarem se tornar grandes polos tecnológicos, precisam entender que isso envolve fomentar o crescimento do ecossistema por meio de financiamentos e trabalhar com startups para o desenvolvimento de novas tecnologias. Antes disso, porém, é imprescindível “percorrer o primeiro quilômetro”, ou seja, fazer as coisas antes de planejar tanto. Afinal, estamos falando de modelos de trabalho em um mundo que não para de mudar. A história e a cultura de Israel apresentam condições peculiares que ajudaram a produzir esse cenário de inovação. É um país recente, com cerca de 70 anos, composto por 60% de deserto, não possui muitos recursos naturais e é uma área de conflito não apenas com os vizinhos, mas também internamente. Sua população é de imigrantes, que, como Balter indica, são pessoas que gostam de assumir riscos, migrando sem nada para construir um novo país. Culturalmente, é um povo muito direto, sem formalidades na linguagem e no tratamento, e também criativo, tendo que lidar com a ausência de recursos naturais e criar soluções a partir “do nada”. O serviço militar é obrigatório tanto para homens como para mulheres, colocando todos os cidadãos em contato com experiências de tomadas de decisão contínua, liderança e estratégia. Além disso, o serviço militar também estabelece redes de relações entre pessoas de diversos estratos sociais, com pobres e ricos atuando nas mesmas unidades. Esse perfil corajoso, bem conectado e confortável com a incerteza é precisamente o mesmo perfil de quem empreende e inova em tecnologia. O cenário de inovação em tecnologia é compreendido por três setores: privado, público e universitário, cada um com suas possibilidades e aptidões. O setor público é responsável pelo capital, pelo financiamento, pela visão do que se almeja construir e pelas leis, atuando como um habilitador do ecossistema. O setor privado envolve investidores e empreendedores. Já as universidades são responsáveis pelo treinamento de novos talentos e pela difusão de conhecimento. Para que a conjunção desses três setores facilite o desenvolvimento do ecossistema, é importante que a burocracia por parte do governo seja reduzida. Afinal, as mudanças que vemos hoje, por mais rápidas que sejam, são as mais lentas que veremos daqui em diante. Os governos precisam aprender a se tornarem mais rápidos, inclusive considerando as características das novas gerações, que já têm direito a voto e querem tudo o mais rápido possível. Para iniciar esse processo, os principais tomadores de decisão precisam ser localizados e envolvidos, junto com um mapeamento das necessidades da organização – de uma cidade, por exemplo. Quem deve escolher quais questões a serem resolvidas são os tomadores de decisão, não os empreendedores. Uma vez decididas as questões, então é possível abrir as portas e convidar pessoas que queiram propor soluções tecnológicas, fomentando sua aproximação, experimentação, piloto e implementação. Como ideia geral, Balter reforçou: as pessoas da própria organização costumam ter muito tempo e boas ideias – o que falta é incluí-las no processo de inovação.
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Panorama da Índia Digital
Panorama da Índia Digital

Sahil Kini, sócio da Aspada Investments Advisors, compartilhou sua experiência com a criação do Aadhaar, o programa de identidade digital indiano. Sua fala foi otimista, especialmente por vir de um país com uma população quase seis vezes maior que a brasileira – diferente dos casos da Estônia, do Uruguai e de Israel.

O processo de digitalização na Índia teve início em 2010, quando o país contava com 1,3 bilhão de habitantes, sendo que 400 milhões não existiam oficialmente aos olhos do governo devido à ausência de uma identidade. Essa invisibilidade significava que toda essa fatia da população estava alheia aos benefícios concedidos pelo governo. Então foi criado o Aadhaar, que em seis anos registrou 1,2 bilhão de pessoas. Nas palavras de Kini, “identidade é a base da vida”, e o que esse programa possibilitou foi incluir essas pessoas na vida econômica, facilitando a abertura de contas bancárias e também o acesso a tecnologias de comunicação. Hoje existem 1,21 bilhões de conexões móveis e 500 milhões de contas bancárias ligadas diretamente ao Aadhaar. O programa foi a base para o processo de transformação digital do governo indiano. Em vez de tentar digitalizar todo o governo de uma vez, o que seria bastante demorado, o Aadhaar foi criado para responder a apenas uma pergunta: você é quem diz que é? Para isso, apenas algumas informações estão presentes nessa base: nome, idade, gênero, endereço, telefone, e-mail e um número de 12 dígitos que pode ser autenticado na nuvem em tempo real. Esses dados funcionam como uma camada básica, em cima da qual várias outras camadas podem ser adicionadas. Um exemplo é a previdência social, que antes era partilhada de forma não muito igualitária devido à dificuldade de operar a divisão dos recursos entre todos que deveriam ser beneficiados. Com o Aadhaar, entretanto, é possível realizá-la diretamente para 1,2 bilhão de cidadãos. Em relação aos serviços bancários, está sendo construída uma camada que funcione de forma independente do intermédio de pessoas, ou seja, na qual os cidadãos possam abrir contas e movimentar seus recursos sem dependerem de alguém para autorizar ou efetuar essas transações. O Aadhaar é reconhecido e utilizado por bancos e companhias de seguro, facilitando o processo tanto para os cidadãos quanto para as empresas, que operam com uma base de informações segura para se relacionar com seus clientes. Outra camada que merece destaque na experiência indiana diz respeito à redução do uso de dinheiro vivo por meio de uma interface de pagamento unificada, que permite, por exemplo, realizar pagamentos usando e-mail ou WhatsApp. Para o consumidor, isso significa reduzir a quantidade de informações burocráticas necessárias para realizar uma transação (número da conta bancária, código do banco, número da agência etc.). Após 18 meses de operação na Índia, atualmente esse sistema já realiza mais transações que cartões de débito e crédito. Um sistema como o Aadhaar levanta questões sobre privacidade, quem tem acesso às informações e para o que pode utilizá-las. Para isso, é preciso desenvolver uma arquitetura eletrônica de consentimento, ou seja, valer-se da tecnologia para administrar quais pessoas e instituições têm acesso a seus dados, na forma de um arquivo que informe quem pode acessar seus dados. Durante sua palestra, Kini insistiu na importância de construir um sistema em camadas. Se tentar fazer tudo dentro de uma única solução, acabará criando uma arquitetura monolítica parecida com os sistemas do século passado. Mantendo-o simples, é também possível mantê-lo barato. Uma vez que os custos sejam reduzidos, a base da pirâmide pode ser alcançada, incluindo milhões de pessoas que não poderiam pagar por serviços mais caros.
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Traduzindo a experiência de Israel e Índia para o Brasil
Traduzindo a experiência de Israel e Índia para o Brasil

De que forma as experiências vividas em Israel e Índia podem indicar caminhos para o desenvolvimento de um governo digital no Brasil? Para responderem a essa pergunta, Dan Balter e Sahil Kini retornaram ao palco para uma conversa mediada pelo Fábio Barbosa, da Fundação das Nações Unidas e BrazilLAB. . O primeiro ponto de atenção é  a cultura do local. Apesar de alguns países latino-americanos já possuírem ecossistemas de startups muito experientes, com apoio governamental na forma de financiamentos, é necessário que se dê um passo a mais. A cultura em Israel, por exemplo, acolhe a possibilidade de fracasso como parte crucial de seus processos. Lá, se você recebe uma verba e fracassa, você tem mais chance de conseguir uma próxima verba. Não há como conseguir melhorar o cenário de inovação quando o risco e o custo da falha são muito altos.

Para realizar essa mudança, que não é apenas tecnológica, mas também cultural, o caso da Índia dialoga com os argumentos apresentados sobre a Estônia e o Uruguai: o movimento deve ser liderado por uma pessoa em posição de poder e reconhecida pelos diversos setores envolvidos no processo, sempre com um olhar atento para os benefícios de longo prazo que serão alcançados. Deste modo, é possível promover mudanças que não façam com que as pessoas em cargos públicos se sintam ameaçadas com as transformações. Qualquer prefeitura ou estado tem suas próprias necessidades. Para alcançá-los, o primeiro passo seria os empreendedores falarem com departamentos governamentais e informar que há soluções. Uma vez que os desafios sejam mapeados e expostos – e expor os próprios desafios é algo que representantes do governo muitas vezes evitam – para que empreendedores possam intervir e propor formas de, em parceria, atender a essas necessidades. Isso envolve integrar e modificar sistemas que originalmente foram feitos para cobrar pelo número de solicitações, e que portanto se beneficiam da burocracia. Para atender aos cidadãos como clientes do governo e, ao mesmo tempo, trazer as gerações mais jovens para se relacionarem de forma mais próxima e direta com o governo, é importante cuidar da experiência desses clientes com os serviços oferecidos e prestados pelo governo. As tecnologias digitais abrem espaço para novos riscos, especialmente em termos de privacidade e integridade da informação. Temer a tecnologia seria o mesmo que temer um bisturi. Não é a ferramenta em si que oferece perigo, mas sim o modo como ela é utilizada por pessoas. Para garantir que as pessoas sejam responsabilizadas pelo mal uso das tecnologias digitais, a única forma é implementar leis, sistemas e processos que regulem o acesso e o uso dessas tecnologias, o que demanda diálogo e intercâmbio contínuos entre quem legisla e quem trabalha diretamente na produção dessas novas tecnologias. Questionados sobre uma mensagem para o Brasil, Balter e Kini sugeriram que esse processo interno para desenvolver um governo digital precisa ser realmente aberto e sincero consigo mesmo, mapeando e identificando as necessidades, de modo a se ter clareza sobre o que é essencial de ser feito em primeiro lugar.
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Governo digital para inovação e inclusão
Governo digital para inovação e inclusão

O propósito da mesa foi refletir sobre de que maneira o governo digital pode ser uma ferramenta para fomentar a inovação e a inclusão de populações tipicamente excluídas. Para compor a mesa, foram chamados Anowa Quarcoo, co-fundadora da Civic Tech Toronto, Daniel Novy, da empresa especializada em blockchain ConsenSys, Heidi Berner, ex-vice-ministra de Avaliação Social do Ministério do Desenvolvimento Social do Chile, e Luis Felipe Monteiro, Secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação no Brasil. O moderador foi o Eduardo Gussem, do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

Quando um cargo público é assumido, muitas vezes a pessoa responsável por ele não tem o conhecimento para compreender como agir, em particular no caso das novas tecnologias e os desafios contemporâneos que surgem por sua emergência. Neste cenário, torna-se fundamental estudar muito para chegar a diretrizes que possam conduzir o país para um rumo melhor. Isso inclui considerar uma nova forma de trabalho que contemple áreas inovadoras, como georreferenciamento e ciência de dados e da informação. O espaço para inovação precisa existir no governo interna e externamente, tanto com laboratórios próprios quanto em diálogo com a sociedade civil e instituições privadas. Os benefícios econômicos da implementação da entrega de serviços públicos por canais digitais são evidentes, da ordem de 97% mais baratos em relação ao modelo corrente. Um exemplo é o alistamento militar, que mobiliza 2 milhões de jovens todos os anos no Brasil, sendo que apenas 600 mil fazem algum exame físico, dos quais só 100 mil são incorporados às forças armadas. Até ano passado, todos tinham que ir à junta militar, tornando este um serviço que custava caro para o cidadão. Com o alistamento digital, há uma economia de R$ 300 milhões por ano para os jovens, que não precisam mais investir em deslocamento, por exemplo. Apesar do potencial econômico (uma boa estratégia de governo digital consegue avançar em 5,7% o PIB de uma nação), o governo brasileiro tem trazido para o digital o mesmo problema do mundo físico: centenas de sites com serviços, o que torna confusa a experiência do cidadão, que não encontra informação oficial nem por meio do Google e acaba ficando à mercê de despachantes. Uma forma de resolver esse problema é criar um canal único, uma plataforma por meio da qual o cidadão possa ter acesso a informações e serviços. Os diferentes níveis do governo ainda atuam de forma muitas vezes independentes, facilitando a existência de múltiplas identidades para as mesmas pessoas e, portanto, tornando os dados muito pouco confiáveis. Na experiência do Chile, essa unificação dos dados começou a partir do cadastro nacional de domicílios. O propósito inicial deste cadastro era informar programas e pessoas que têm direitos a diferentes subsídios para que elas pudessem solicitá-los e obtê-los mais facilmente. Esse propósito trouxe luz a questões muito importantes sobre exclusão digital: apenas 20% das pessoas com mais de 60 anos usam tecnologia, assim como classes econômicas menos favorecidas e moradores de ambientes rurais também têm menos contato com o digital. Sem informação adequada sobre os cidadãos, é difícil fazer um desenho eficiente para políticas sociais. No Brasil, ainda se projetam e avaliam as políticas públicas de forma empírica, sem dados confiáveis. Ocorre que toda essa informação é valiosa para prever cenários e fazer correções de rota. No Chile, as pessoas recebem uma identidade quando nascem. Isso é muito importante porque torna possível cruzar os dados, mesmo que os sistemas não estejam integrados. No Brasil isso ainda é um desafio, embora o processo de biometria realizado pelo sistema eleitoral possa servir como estrutura basilar para dar início ao processo de identidade digital. Para pensar sobre inclusão nos processos de governo, uma pergunta é essencial: como as pessoas se envolvem com o governo? A forma tradicional envolve duas maneiras: voto ou consulta pública. No caso do voto, que acontece a cada quatro anos, na maioria dos países nem todo mundo que paga impostos pode votar, talvez por não serem registrados nem cidadãos permanentes, ou imigrantes sem direito a voto. No caso de consulta pública, os dados precisam estar facilmente disponíveis para que o governo possa ser aberto. Ademais, quando se fala em inclusão digital, é preciso considerar quem está à mesa. Às vezes as minorias estão à mesa, mas não são vistas nem ouvidas. Para tratar dessa questão, as ferramentas desenvolvidas devem ser focadas não apenas nos problemas, mas nas diversas pessoas envolvidas, chamando-as para participarem dos processos de decisão. A continuidade entre governos é muito relevante para garantir a eficiência desses projetos. A transição entre um governo e outro muitas vezes joga por terra avanços que são de médio e longo prazo, atrasando o desenvolvimento e a aplicação de tecnologias digitais que poderiam facilitar a experiência dos cidadãos. De modo geral, o que fica entre os governos são as leis e regulamentações, e isso é importante para criar um ambiente seguro e previsível que, além de fomentar a inovação, também seja favorável para as empresas de tecnologia que podem auxiliar no desenvolvimento desse governo digital.
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Apresentação do Mapa da Informação
Apresentação do Mapa da Informação

Ronaldo Lemos,  um dos curadores do GovTech Brasil 2018, trouxe a questão: após tantos exemplos, por que não estamos fazendo tudo isso? O desafio levantado no evento foi esse, como colocar a mão na passa para pensar em soluções para esse problema que não é apenas brasileiro. No mundo inteiro, um bilhão de pessoas vivem sem prova oficial de identidade, o que produz um paradoxo da subidentificação: com tantos recursos e, por vezes, pessoas super-identificadas – com dois, três documentos de identidade cada – outras tantas seguem sem identificação.

Esse é um problema histórico enfrentando desde a unificação dos estados nacionais, quando os governos passaram a se preocupar com o reconhecimento e a identificação de seus cidadãos. A fim de compreender como esse problema se desenha, se mostra relevante compreender três modalidades distintas de organização da informação a respeito dos cidadãos: o registro civil, a identidade civil e os cadastros administrativos. O registro civil diz respeito às informações biográficas das pessoas: nascimento, nome dos pais, óbito. Ele é feito pelos cartórios de registro civil e foi instituído em 1888. Entretanto, durante muitos anos vivemos uma situação de sub-registro. No ano 2000, 21% das pessoas não eram registradas no nascimento. Hoje em dia esse número é próximo de 1%, ou seja, o problema foi praticamente resolvido. A identidade civil se refere à unicidade do cidadão e existe para dizer que ele é quem diz que é. No Brasil, o registro de identidade (conhecido como RG, de “registro geral”) se apoia em dados dactiloscópicos observados pelas polícias dos estados. Isso gera grandes falhas no sistema, pois é possível criar diferentes cadastros de identidade devido à falta de um sistema integrado por todo o país. A solução para isso seria a criação de um processo unificado de identidade e registro com banco de dados integrado. Por fim, os cadastros administrativos são números que o governo gera com relação a determinado tipo de política pública. É o caso do CPF, que se refere à política fiscal. Algumas iniciativas de digitalização de documentos no Brasil têm sido apenas a repetição do que já existe no papel, com o acréscimo de facilidades cobradas dos cidadãos, o que os torna financeiramente excludentes. Enquanto a lógica permanecer a de pluralização de documentos e de repetição da burocratização, isso seguirá sendo um problema. Em pesquisa recente, 58% das pessoas informaram terem interesse em mais digitalização nos serviços do governo. Ou seja, há grande demanda, porém baixa oferta de serviços que sejam realmente importantes, nos quais as pessoas percebam valor. Este levantamento está disponível no site: http://mapadainformacao.com.br/
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Identidade digital para combater a burocracia e melhorar a democracia
Identidade digital para combater a burocracia e melhorar a democracia

Este painel, apresentado pelo Diego Martins, do Acesso, e composto por Antti Poikola, membro do conselho da Sovrin Foundation, Lila Hänni, do programa e-Democracia do e-Governance Academy, e Ronaldo Lemos, do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, teve como tema central a reflexão sobre as possibilidades de pensar uma identidade digital unificada para um país de grandes proporções populacionais e burocráticas como o Brasil.

No centro da questão da identidade digital está o acesso e a utilização de dados sobre as diferentes pessoas que compõem o país. Os diferentes governos e programas possuem dados diversos, bem como empresas, muitos deles repetidos, mas também muitos diferentes entre si. Trata-se de uma verdadeira mina de informação desintegrada e, portanto, muito menos valiosa do que poderia ser. Esse atraso nasce da burocracia, que atrasa o desenvolvimento do país. Cada empresa cria sua própria identidade e sua própria burocracia. O custo em tempo e esforço de não se ter uma identidade padronizada que possa ser utilizada e acessada tanto pelo governo quanto pela iniciativa privada implica em atrasos cada vez maiores. Na Estônia, o processo não foi linear e simples, mas havia uma visão centrada nos cidadãos logo de início. A criação de um documento único que sistematizasse tudo foi possível porque, na ocasião, a população estoniana passava por um processo de recadastramento decorrente da independência. O que possibilitará essa transformação depende de cada país e contexto. Na Estônia, esse novo documento digital tornou-se obrigatório, embora o seu não-uso não fosse punido. A metodologia foi diferente: desenvolver serviços digitais que a população percebesse como era útil ter essa carteira de identidade digital. No final das contas, essa discussão é menos sobre tecnologia e mais sobre parcerias entre governos, empresas e cidadãos. A tecnologia atual, entre blockchain e registros distribuídos, possibilita a existência de uma identidade autossoberana, ou seja, uma identidade digital permanente para qualquer pessoa, organização ou coisa – e que, para Poikola, não dependa de nenhuma autoridade centralizada. Essa é uma forma de confirmar que o cidadão é quem diz que é baseado em uma rede que ninguém controla sozinho, tornando a informação mais segura e, portanto, confiável. Para tornar isso realidade no Brasil, não é preciso reinventar a roda. Já existem modelos testados, como os exemplos da Estônia, do Uruguai, da Índia e de Israel. Isso é um ativo muito importante porque já temos lições consolidadas e, portanto, a oportunidade de resolver esses problemas. Inclusive, o fato de o Brasil ser um país com muita burocracia pode ser transformado em uma vantagem, à medida em que resolvê-los significaria ser capaz de resolver problemas do mundo inteiro. Há três grandes riscos no desenvolvimento da identidade digital no Brasil. O primeiro deles nasce do tamanho do país e da quantidade de pessoas, tanto cidadãos quanto tomadores de decisão. É necessário dialogar e negociar com diferentes pessoas, o que dificulta a existência de uma vontade política unificada. Um caminho é abrir à experimentação por parte das unidades menores, como cidades e estados, para aprender com elas. Por outro lado, isso também pode gerar um caos em que cada unidade faz uma coisa diferente sem conversar entre si. O segundo risco também tem a ver com vontade política, mas especificamente com corrupção política. Isso é perigoso, pois uma vez que políticos estejam atendendo a interesses pessoais em vez dos interesses da população, será muito difícil implementar sistemas tecnológicos que, por sua transparência característica, limitariam esse exato tipo de corrupção. A democracia precisa de um sistema transparente sobre como os partidos se organizam, como as campanhas são financiadas, quais são as regras etc. Por fim, o terceiro risco é o da manutenção da desigualdade, pois é muito possível automatizá-la. Como dito anteriormente, a tecnologia é uma ferramenta e sem clareza de propósito e inclusão, ela pode tornar ainda mais fácil sustentar as desigualdades sociais que marcam o Brasil.
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Inovação para impacto: como o setor privado contribui para soluções sociais
Inovação para impacto: como o setor privado contribui para soluções sociais

Bill McGlashan, fundador e sócio-gerente da TPG Growth e co-fundador do The Rise Fund, por conta de sua carreira como empresário e investidor, trouxe para o evento seu olhar sobre a participação do setor privado na inovação para impacto social. Observando os exemplos já apresentados, todos eles incluíram o setor privado na busca por soluções para os problemas enfrentados. Isso acontece porque o setor privado possui muito mais agilidade do que o governo consegue suportar. A questão, portanto, é como os governos podem auxiliar as iniciativas privadas que visam impacto social? Nas favelas brasileiras há 8 milhões de empreendedores. Como eles podem ser auxiliados? Só por ter acesso a crédito ou insumos melhores, por saber que se pode ter acesso a uma fonte confiável para seus produtos, esses empreendedores conseguem aumentar em 70% a renda familiar. Com esse tipo de impulso é possível fazer com que as pessoas façam mais do que têm feito.

Quando falamos em investimentos com impacto social, alguns problemas surgem. Um deles é a dificuldade para mensurar o impacto. Muitas vezes é difícil antever qual será o impacto produzido por uma iniciativa e, portanto, é um risco. Outro problema é a possibilidade de escala, que é o que efetivamente viabiliza a existência de um impacto social efetivo, e está diretamente relacionado à possibilidade de medir o impacto. Uma vez que você entende o que gera impacto, é possível investir e ter retorno. Além disso, ainda existe uma desconfiança muito grande sobre negócios de impacto, sendo necessário desmistificar a ilusão de que há conflito entre impacto e retorno. Afinal, se você construir uma empresa que não tem condições de lucro e escala, seu impacto será minúsculo. O setor privado possui uma agilidade que é difícil de ser replicada pelo governo. Quando se explica a empreendedores o que é investimento de impacto, eles já parecem prontos para se envolverem. Com diversos setores do governo, entretanto, esse é um processo mais difícil, dada a burocracia e falta de contato com a área de tecnologia. De acordo com McGlashan, um modo de facilitar a relação entre startups e investimentos de impacto com o governo é envolver pessoas famosas, cuja repercussão de se posicionar contra seria muito grande. Por fim, à medida que nos encaminhamos para um futuro cada vez mais incerto, surgem novas perguntas: como definir o que é emprego quando a produtividade está aumentando e as pessoas já não precisam mais trabalhar oito horas por dia? Como o que ensinamos aos nossos jovens hoje os está preparando para um mundo que não sabemos como será? “Eles têm que ser adaptáveis, capazes de apreender, criativos. Isso vem da dedicação, da tecnologia, tudo isso integrado à educação”, afirmou McGlashan, antes de finalizar dizendo que embora enfrente “desafios significativos, parece que o Brasil está acordando”.
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Apresentação do Museu do Amanhã
Apresentação do Museu do Amanhã

Alexandre Fernandes, fundador do MoTI Foundation, foi um dos diretores do Museu do Amanhã no Rio de Janeiro, um museu de ciências aplicadas que convida as pessoas a iniciarem uma investigação sobre amanhãs possíveis. Trata-se de um novo convite, uma nova narrativa sobre a nossa relação com o planeta e uns com os outros e parte do princípio de que somos movidos por narrativas. As histórias que o museu apresenta são baseadas em grandes perguntas: quem somos, onde estamos, de onde viemos, para onde vamos e como queremos ir?

A abordagem do museu é a de utilizar a tecnologia como uma maneira de produzir sentido e de introduzir novas formas de interação. Para muitas pessoas, é uma introdução a tecnologias até então inexistentes. Estamos entrando em uma nova era e precisamos refletir sobre como vemos o crescimento, inclusive o econômico. O museu faz uma mistura de storytelling (a arte da contação de histórias) com visualização de dados, apresentando dados reais de forma clara, com especial foco em seis macrotendências: mudanças climáticas extremas, alteração da biodiversidade, crescimento populacional e longevidade, maior integração e diferenciação, aumento de artefatos e subsídios, e expansão do conhecimento. O museu, que funciona como um organismo digital, já é o mais visitado do Brasil. Esse organismo é composto por diversas partes, como a Iris, que guia e memoriza a visita da pessoa para oferecer uma informação mais amigável às pessoas a partir de suas trajetórias, e o Laboratório de Atividades do Amanhã, um centro de prototipação que utiliza tecnologias tradicionais e emergentes para prototipar amanhãs mais justos de forma transdisciplinar, funcionando como as mãos do museu. A partir da conexão com iniciativas semelhantes ao redor do mundo, o Museu do Amanhã busca atuar principalmente no global, não só no local. Essa proposta busca elaborar com todo o planeta, e não apenas em uma cidade de forma isolada, iniciativas que pensem na construção de um futuro melhor. Afinal, o que quer que se sonhe ou planeje para o futuro depende daquilo que for realizado desde hoje.
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Dia 2 - Colocando em prática: Novas tecnologias para problemas antigos
Fortalecimento do ecossistema brasileiro de inovação
Fortalecimento do ecossistema brasileiro de inovação

Após um dia inteiro de exemplos e inspirações sobre como outros países têm desenvolvido sua relação com a tecnologia no setor público, Armínio Fraga, sócio fundador da Gávea Investimentos, Georgia Pessoa, diretora executiva do Instituto Humanize, Marcos Lisboa, presidente do Insper, e Vinícius Carrasco, ex-diretor de planejamento e pesquisa do BNDS, dialogaram sobre como fortalecer o ecossistema brasileiro de inovação. A moderadora foi a Letícia Piccolotto, fundadora do BrazilLAB e presidente da Fundação Brava.

O painel, representado por vários dos setores envolvidos (privado, terceiro setor, startup e academia), iniciou com uma constatação: todas as partes interessadas precisam participar da identificação dos problemas e também de suas soluções. Isso levanta a pergunta: como podemos nos tornar cada vez mais capazes de interagir, participar de uma comunidade mais conectada e gerar mais impacto? Nos últimos anos, a parceria entre o governo brasileiro e o setor privado não tem sido bem-sucedida. O ecossistema atual favorece os predadores e sua mudança depende de um sistema político que produza bons governos, que administrem o Estado visando o bem comum com uma perspectiva de longo prazo, que vá além dos curtos mandatos de governo. Em geral, não há incentivo para que o setor privado resolva as coisas por si só. O que se precisa, além de foco na produtividade, é mostrar às pessoas que elas têm oportunidades razoáveis na vida e também de que existe solidariedade, para que elas tenham perto de si alguma rede de proteção. O mercado, como gerador de riquezas, ganhou todas essas funções, mas está perdendo no campo da felicidade geral das pessoas, cujo grande medo é serem substituídas por máquinas e sistemas. A inovação tecnológica pode e deve ser complementar ao que as pessoas fazem, entretanto a educação precisa ser desenhada para isso. É necessário desenvolver uma infraestrutura de qualidade, muito além de boas conexões de internet, incluindo questões de qualidade de vida pessoal, entendendo que o cidadão é um cliente do Estado. Para que o Estado desempenhe esse papel, ele deve atrapalhar menos. Um dos argumentos destacados no painel é o de que proteger indústrias velhas é a melhor maneira de se manter velho. Se queremos inovação, temos que enfrentar o sofrimento de ultrapassar velhas tecnologias. O papel das políticas públicas é proteger quem ficou pra trás, mas não promulgar leis protegendo as tecnologias ultrapassadas. A inovação é resultado de concorrência e inovar requer aceitar fracasso, o que demanda o reconhecimento rápido do erro. Para isso, precisamos de metas e métricas, bem como avaliação de resultados. A instituição de processos de avaliação, entretanto, envolve uma disposição das pessoas abrirem mão de seus privilégios, como empresários com crédito subsidiado, professores que não queiram ser avaliados ou médicos se recusando a terem ponto em hospitais. Sem avaliar não se aprende com o fracasso e não aprender com ele é a melhor forma de ficar refém do passado. Além do foco na competição e no acolhimento do fracasso como parte do processo de inovação, também é importante investir em capital humano, na construção de habilidades que induzam a busca e obtenção de inovações e melhorias das mais variadas. Sequer é necessário descobrir essas inovações; há diversos exemplos de boas práticas ao redor do mundo que podem ser copiadas e replicadas. Temos a possibilidade de fazer mais e melhor com os mesmos recursos. Contudo, a dificuldade é lidar com os interesses de pessoas que não desejam essas inovações, pois elas ameaçam seus lugares de conforto. Implantar mais com menos inevitavelmente envolve a necessidade de menos recursos humanos do que estruturas governamentais rígidos requerem. A velocidade dessas transformações depende de como lidamos com as pessoas envolvidas. Afinal, se nós não queremos, o governo não vai mudar. A escolha não está lá, mas com a gente.
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Saúde: melhoria dos serviços, acessibilidade e qualidade para todos
Saúde: melhoria dos serviços, acessibilidade e qualidade para todos

Uma das principais demandas de atenção no serviço público é a área da saúde, que muito poderia se beneficiar com soluções tecnológicas. Para discutir como trazer tecnologia para resolver os problemas que temos na saúde, o evento contou com um painel moderado pelo Manoel Lemos, da RedPoint Ventures, e com a presença da Elizabeth Jucá, da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Juiz de Fora, Gonzalo Neto, professor da Universidade de São Paulo, e Patrícia Ellen, presidente da Optum no Brasil.

O cenário dos serviços de saúde no Brasil não é animador. Apesar de nos últimos 40 anos o mundo ter evoluído bastante, com aumento de expectativa de vida e renda, a distribuição dessa evolução é desigual. O Brasil é o décimo país mais desigual do mundo. Cerca de 67% da população tem acesso à atenção primária de saúde, mas apenas 25% conseguem acessar o serviço privado. Com o aumento da expectativa de vida, mais pessoas serão mais velhas no futuro e, portanto, demandarão atenção ainda maior à saúde. Atualmente se enfrenta uma tripla carga de doenças: doenças crônicas, doenças infecciosas (que cresceram nos últimos anos) e causas externas (violência no trânsito, homicídios etc.). São três sistemas de saúde diferentes para lidar com esses casos, o que explica o crescimento dos gastos em saúde. A despeito de nos últimos dois anos ter-se gerado mais dados que em todo o restante da história da humanidade, aumentando também a conectividade e diminuindo o custo da capacidade de processamento desses dados, 80% dos registros médicos ainda contêm dados não-estruturados e mais de 70% dos médicos não usam nenhum tipo de sistema informatizado. No Brasil, há mais aparelhos celulares do que habitantes, portanto o potencial para digitalizar o acesso é imenso. Com tecnologia aplicada em escala, é possível criar um prontuário eletrônico único, de modo que os dados de um paciente sejam conhecidos no momento em que ele chega ao hospital, reduzindo não apenas o tempo e o custo de cuidar dos pacientes, mas também eventuais problemas oriundos da falta de informação sobre o histórico médico de cada pessoa. Essa é uma tecnologia facilmente aplicável uma vez que haja uma identidade digital. Diz-se que boa medicina se faz com três Es: escutar, examinar, explicar. Há um quarto E que poderia ser acrescentado: escrever. Já existem 14 diferentes profissionais na área de saúde; se não houver registro das informações, cada um desses profissionais funcionará como uma linha de conhecimento distinta e sem diálogo entre si. Se não escrever, os demais não saberão o que está acontecendo e os pacientes terão que passar por tudo de novo, o que gera um grande atraso. A grande questão é a eficiência. Por alguma razão, é como se os brasileiros houvessem decidido brigar com a eficiência, não medindo, não acompanhando métricas nem buscando metas. Essa ineficiência não é particular do Estado, ela também está presente no setor privado, em que se fazem 135 ressonâncias magnéticas por 1000 beneficiários por ano, enquanto na Alemanha são feitos 22. Isso ocorre porque o que é remunerado não são as ações de prevenção e proteção, somente as de cura. Outra dificuldade para a inserção da tecnologia na saúde é o preço de sua implementação. O orçamento no dia a dia precisa ser regulado, e quando a escolha está entre medicamentos ou tecnologia, a escolha recai para os medicamentos. A falta de controle de dados de estoque, entretanto, muitas vezes resulta em remédios sobrando e precisando serem queimados. Ou seja, o custo da tecnologia muitas vezes se paga por meio da economia produzida. O lado do governo também não encontra facilidade para lidar com esses desafios. Ao entrar no governo, tem-se quatro anos para ficar à frente da administração pública, mas a investigação sobre como resolver os problemas acaba consumindo dois ou três anos. Quando chega o momento de tomar ação, precisa fazer licitação, sendo que concursos públicos levam dois anos para produzir resultados. Um caminho é revisitar a administração direta e melhorar a capacidade de realizar parcerias com a administração privada, desde que se tenha boa regulação, com transparência e controle.
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O papel fundamental do empreendedorismo
O papel fundamental do empreendedorismo

Uri Levine, empreendedor em série e mentor de jovens empreendedores, co-fundador do Waze e membro do conselho de meia dúzia de startups, trouxe uma fala inspiradora sobre o que é necessário para empreender e inovar a partir do ponto de vista dos empreendedores. Para ele, envolver-se com empreendedorismo é como se apaixonar, pois tanto amor quanto ódio são sentimentos que levam ao sonho e à paixão, dando energia para enfrentar a longa montanha russa emocional do trabalho com startups. Esse apaixonar-se, entretanto, não pode ser com a solução, mas sim com o problema, do contrário é possível perder de vista as melhores oportunidades para resolvê-lo.

A jornada de vida de uma startup envolve localizar um problema, descobrir quem tem esse problema – e se ninguém além do próprio empreendedor o enfrenta, não se trata de um problema para ser resolvido por uma startup – e então compreender a percepção dessas pessoas sobre o problema, para só então tentar construir uma solução. Nas palavras de Uri, “bom o bastante vai ganhar o mercado”, sugerindo que a meta inicial não é a perfeição, mas sim aquilo que já funcione e produza resultados. Essa busca pelo “bom o bastante” está fadada a experimentar o insucesso diversas vezes, mas está tudo bem: se você não falhar é porque ainda não ousou o suficiente. Após a experiência de lidar com diversas startups, Uri compreendeu que há dois principais problemas que fazem com que elas falhem: ou a equipe não é qualificada o suficiente ou há problemas de comunicação interna (ou questões de ego). Quando o CEO sabe disso desde o início, deve tomar a decisão certa e difícil de intervir e modificar a equipe. Há duas opções para isso não acontecer. A primeira é o CEO não ter ciência desses problemas, o que é ruim. A outra opção é saber e não fazer nada, o que é ainda pior, pois significa que o CEO não tem o pulso necessário para conduzir uma empresa para o sucesso. Neste cenário, os funcionários com melhor desempenho vão abandonar a startup simplesmente porque podem. Um negócio é disruptivo quando ele interfere no equilíbrio de mercado, seja em termos de produto, preço, conhecimento ou modelo de negócio. Uma vez que alguém oferece um serviço gratuitamente, por exemplo, todos aqueles que cobram por ele serão afetados. Disruptores são pessoas novas no cenário, que não têm nada a perder. Quem já está no jogo não pode causar disrupção, pois têm muito a perder. Se já é difícil para pessoas reconhecerem que o modo como agem está errado, imagine para as organizações. Alguns cenários estão “pedindo” por disrupção: mercados em que informação está faltando ou é assimétrica, mercados com intermediários, quando o preço é muito diferente do valor, quando a regulamentação não funciona. Um dos maiores desafios, especialmente de setores governamentais quando colocados frente a frente com tecnologias disruptivas ou novos dados, é que se não quiserem mudar, provavelmente agirão para evitar a mudança. Governos tendem a não compreender a experiência do usuário, apenas o problema. É muito fácil não perceber que uma revolução está para acontecer. Os exemplos são inúmeros e a humanidade continuará a fazer isso. A disrupção é assustadora, pois traz uma pergunta: o que será de mim? De todo modo, a disrupção também é boa, pois sempre leva a um melhor equilíbrio de mercado – afinal, nas palavras de Uri, “não há nada como a comparação de preços para manter as pessoas honestas”.
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Segurança pública: tecnologias para cidades melhores
Segurança pública: tecnologias para cidades melhores

Para avaliar pontos específicos em que a tecnologia pode auxiliar o setor público, Ilona Szabó, diretora-executiva do Instituto Igarapé e cofundadora do Movimento Agora, Raul Jungmann, ministro da Defesa do Brasil, e Thiago Camargo, Secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, falaram sobre como a tecnologia pode ajudar a aprimorar a transparência e a eficiência da segurança pública brasileira. A mediação foi feita pela Joana Monteiro, do Instituto de Segurança Pública.

O cenário da segurança pública no Brasil é alarmante. O país é o terceiro lugar mundial em número absoluto de presos, tem metade do número de vagas disponíveis, a maior parte dos presos são jovens e com baixo nível de escolaridade (61% não completaram o ensino fundamental). Em número absoluto de homicídios por ano, o Brasil alcança 32 mil, sendo o primeiro lugar no mundo. Apesar desse cenário, diversas iniciativas vêm sendo testadas, como o ISP Geo, sistema de análise criminal do estado do Rio de Janeiro, que se vale do policiamento de manchas criminais para evitar operações aleatórias; o Crime Radar, aplicativo de predição de crimes baseado no que aconteceu no passado para prevenir crimes futuros; o Cop Cast, câmera corporal via aplicativo android que grava vídeo, áudio e GPS, conseguindo acessar o policial em tempo real, como forma de reduzir o uso excessivo da força por policiais; e o Observatório de Prevenção da Violência, como forma de descobrir quais são os fatores de risco que produzem violência e quais famílias e indivíduos deveriam ser alvos de intervenção, por terem maior probabilidade de se envolverem com atividades criminosas. O maior desafio para implementar essas e outras tecnologias e estruturar um sistema de informação no Brasil é o que os palestrantes chamaram de federalismo acéfalo: a segurança é de responsabilidade dos estados, sem haver uma diretriz central para organizar e dar rumo à segurança pública. Atualmente, o governo não é capaz de produzir uma única estatística confiável na área de segurança pública. Quem produz essas informações são entidades não governamentais. Como produzir análises e ações se você não dispõe de dados confiáveis? Atualmente, o sistema prisional está controlado por facções criminosas (existem cerca de 70 no Brasil, entre grandes e pequenas). Quando o Estado não assegura a vida do preso, a tendência é que ele se vincule a alguma facção, para sobreviver. Do aparato prisional do Estado, cerca de 15% tem atividade laboral e 15%, atividade educativa. Por falta de informação, o que a população imagina é que a solução para a criminalidade é prender mais pessoas, porém o sistema prisional, da forma como está estruturado, é o próprio motor da criminalidade. Para quebrar esse ciclo é preciso vontade política, que nasce quando a sociedade sabe o que pedir. Hoje em dia já se sabe o que funciona: prevenção inteligente. Os municípios precisam de ferramentas para chegar nesse ponto, usar informação para prevenir o crime. Um caminho para lidar com o sistema prisional são as parcerias público-privadas. Entretanto, é essencial que se pense sobre como não permitir lobbies e lucratividade com problemas sociais, de modo que o crime não se torne um negócio vantajoso.
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Ambiente regulatório: criando a estrutura para governança e segurança jurídica
Ambiente regulatório: criando a estrutura para governança e segurança jurídica

Maurício Wanderley, do Tribunal de Contas da União, Miriam Wimmer, Diretora de Políticas para a Transformação Digital no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, e Vera Monteiro, professora da Fundação Getúlio Vargas, debateram sobre a previsão de um governo digital e quais as demandas em termos de regulamentação  para que ele aconteça. A mediação foi do Guilherme Dominguez, do BrazilLAB.

Por que empreender uma transformação digital? O motor da economia do futuro é digital, baseada em dados, com dispositivos conectados, este é um modelo eleito como prioritário. Dos 32 países participantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas um não tem uma agenda digital formal (os Estados Unidos, que embora possua diversas iniciativas nessa direção, teve a pauta despriorizada no governo Trump). Não há um fórum em que esse tema não esteja tratado como importante. O Brasil também precisa se engajar nesse esforço e, para isso, precisamos superar a compartimentalização. O digital requer uma coordenação muito mais profunda e precisa ter sua importância política reconhecida, demandando liderança e centralidade. É necessário dar um passo atrás para perceber e juntar o todo, o que tem se mostrado um arranjo muito complexo. O digital não é uma questão setorial, está difundido entre várias pastas. É uma decisão de centro de governo. Dentro do Tribunal de Contas da União, órgão responsável pela fiscalização do orçamento da União, também há quem esteja tentando inovar. Em 2005, por exemplo, descobriu-se, a partir da criação de uma unidade para fiscalizar gastos com tecnologia da informação, que se gastava muito dinheiro sem alcançar o resultado desejado. O processo de contratação era longo demais, gerando atrasos e contratos rompidos com trocas de gestão, ou os aparelhos comprados já estavam obsoletos quando finalmente chegavam. É preciso encontrar uma estratégia para atacar as causas desses problemas, que tem a ver com má governança nas instituições públicas. Em 2007, o TCU criou um indicador de governança, com um questionário sobre boas práticas. Embora inicialmente focado em tecnologia da informação, depois percebeu-se que a governança envolvia e afetava muitas áreas, incluindo, por exemplo, recursos humanos. O TCU contratou a OCDE para auxiliar nessa questão: como o TCU pode ajudar na melhoria da governança? Um bom modo é a elaboração de referenciais de boas práticas e de avaliação de políticas públicas, indicando o que elas devem ter para serem boas políticas. Essas ações são parte de um movimento para desmistificar o papel do TCU como atrapalhador de inovações. Inclusive, o TCU tem seu próprio laboratório de inovações, de onde surgiu  a Alice, um robô de inteligência artificial cujo propósito é analisar licitações e identificar possíveis fraudes a tempo de intervir sobre elas. O ambiente regulatório brasileiro não é propício para inovações. O servidor público precisa tomar decisões, muitas vezes com informações incompletas, e se não der certo ele é penalizado. As startups podem falhar, mas o gestor público, não, do contrário há denúncia (às vezes penal). Ou há lei expressa para viabilizar a contratação de tecnologia pelo governo ou os riscos seguirão imensos. Um modo de enfrentar esse problema são ações que não envolvam mexer na legislação, porque mudá-la leva tempo demais, especialmente quando atravessam interesses de corporações. Existe muita desconfiança da administração pública e também do mercado. Outro modo envolveria criar um ambiente regulatório mais seguro para o contrato sem licitação. Entretanto, isso não pode ser banalizado, pois correria o risco de tornar-se algo sem governança. Ou ainda não responsabilizar o gestor que erra de boa fé, responsabilizando apenas quem atua com erro grosseiro. O melhor caminho parece ser o de criar condições para regulamentar e proteger gestores com inovação, sem jamais perder de vista a responsabilização pelo mau uso da informação – especialmente quando as bases de dados hoje compartimentalizadas estiverem mais acessíveis. Devemos ter cada vez mais responsabilidade, senão perderemos a segurança jurídica.
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Educação: capacitação para as lideranças do amanhã
Educação: capacitação para as lideranças do amanhã

Este painel temático tratou sobre educação, compreendendo-a como elemento chave para assegurar o desenvolvimento do país, e contou com a participação de Amy Solder, chefe dos programas de inovação da Nesta, Benjamin Koo, um dos fundadores do iCenter@Tshinghua, Denis Mizne, CEO da Fundação Lemann, Paulo Blikstein, professor da Universidade de Stanford, e Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna, e com a moderação do Fábio Tran, da Omidyar Network.

O tema da educação envolve uma série de aspectos: conectividade nas escolas, inclusão no sistema educacional, aprendizagem criativa, empreendedorismo, novas habilidades, empregos e liderança. É parte do objetivo da educação dar ferramentas e proporcionar autonomia, autoconfiança, inteligência social e competência cultural, entre outros valores necessários para os líderes do futuro. Quando se fala em tecnologia na educação, é preciso pautar a discussão por meio de evidências. Por um lado, a tecnologia é vista como uma grande promessa, assistindo o aprendizado, oferecendo dados para refletir sobre como dar aulas, colocando conteúdos mais engajantes na frente dos alunos, dando feedbacks mais rápidos e adaptando os conteúdos para os momentos de cada aluno. Contudo, apenas colocar o computador na frente do aluno sem um projeto pedagógico não é o suficiente. A criança aprende a usar o computador, mas não necessariamente aprende mais na escola. A discussão não deveria ser sobre usar ou não a tecnologia. Qualquer tecnologia, se for flexível e alinhada com o problema a ser resolvido, ajudará a resolvê-lo. O conhecimento da tecnologia está na Base Nacional Curricular e também no Plano Nacional de Educação. A crise brasileira é de aprendizagem. Há recursos, há professores, as crianças estão na escola, mas a aprendizagem não está acontecendo. Neste contexto,  40% evadem antes de concluírem o ensino médio e apenas 7% dos adolescentes saem da escola sabendo matemática no nível que é esperado deles. A tecnologia nos ajuda a fazer mais rápido e mais barato ou potencializa o que podemos fazer. Provas poderiam ser digitais, bem como formações poderiam ser online. Tudo isso economizaria tempo e dinheiro, abrindo espaço para que os professores realizem melhor seus trabalhos. O computador não deve substituir o professor, ele é uma ferramenta que sozinho não faz nada. Sabemos que uma pessoa aprende melhor com o apoio de  outra pessoa do que com um computador. A parte importante é como você investe o dinheiro para treinar os professores para aprenderem a usar aquela ferramenta para ser útil. Para começar, é preciso atentar para o ator central, o professor, para não repetir erros. Tudo o que estamos discutindo deveriam ser ferramentas para potencializar o trabalho do professor. Não podemos abrir mão de tentar atrair os melhores alunos brasileiros para serem professores e se juntarem aos professores atuais. É necessário trabalhar com outro modelo, voltado para habilidades do século XXI, como criatividade, resolução de problemas, pensamento crítico. Quem não tiver essas habilidades viverá entre subempregos porque serão posições de trabalho continuamente substituídas pelas máquinas. Escolas vanguardistas estão criando espaços maker, contratando mais professores, fazendo educação baseada em projetos e não mais em aulas expositivas. Novamente, teremos uma pequena elite que frequentará essas escolas e terá uma educação para o século XXI e uma enorme quantidade de pessoas em escolas aprendendo do jeito do século XIX. Não é só acesso, é também o jeito de ensinar. É preciso redesenhar o currículo para ser mais mão na massa, mais baseado em projetos, não só em memorização. O aprendizado em que o aluno aprende e usa as mãos é um tipo de aprendizagem que muda o desenvolvimento do país. Não adianta ter professor treinado e infraestrutura se não temos uma biblioteca de conteúdos disponíveis. O grande desafio hoje é termos uma biblioteca pública digital de altíssima qualidade com um grande sistema de curadoria, de tal maneira que possamos ter certeza de que o que está lá dentro seja de qualidade. Por fim, não podemos esquecer que a educação precisa ter uma visão, não só uma implementação. Pra que queremos educação? Que sonho temos para o Brasil? Não se pensa um futuro sem sonhar um futuro para o Brasil.
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Visão 2009-2022: conversa com presidenciáveis
Visão 2009-2022: conversa com presidenciáveis

O fechamento do GovTech Brasil 2018 foi realizado a partir de entrevistas de 20 minutos com cinco candidatos à presidência para as eleições deste ano. Os presidenciáveis entrevistados, João Amoêdo, do NOVO, Guilherme Boulos, do PSOL, Henrique Meirelles, do MDB, Geraldo Alckmin, do PSDB, e Marina Silva, da REDE, receberam perguntas semelhantes sobre seus projetos de governo para tecnologia, as possibilidades de parceria entre setor público e privado e as consequências do avanço da tecnologia para pessoas que porventura perdessem seus empregos, como cobradores de ônibus.

Muitas das respostas dadas pelos candidatos ecoaram o que foi discutido ao longo de todo o evento: usar tecnologia significa devolver poder para as pessoas, dar mais liberdade e autonomia, fazendo uma transferência real de poder; a plataforma do governo deve ser de prestação de serviço e tratar os cidadãos como seus clientes; a tecnologia deve ser usada para melhorar os processos, em vez de apenas digitalizar o que já existe; a burocracia, tão custosa para a população, precisa ser reduzida; pensar formas mais eficazes dos cidadãos participarem é essencial; só é possível de fato aproveitar um governo digital por meio da universalização do acesso à tecnologia; o Estado precisa ser construído de forma aberta e transparente. Entre os pontos de controvérsias, um em especial ganhou destaque: a sociedade deve funcionar a favor da economia, ou a economia deve trabalhar a favor da sociedade? Essa questão surgiu especialmente vinculada ao que fazer com relação às consequências na vida das pessoas a partir da implementação de novas tecnologias. De que forma o governo pode cuidar das pessoas e capacitá-las cada vez melhor para lidarem com o contexto do mundo digital? Uma grande ideia, ao final do evento inteiro, foi repetida diversas vezes, tanto nas palestras e mesas quanto nas conversas com os presidenciáveis: a parte técnica da tecnologia é a mais fácil. A mais difícil é a parte humana, que envolve liderar essa mudança, colocar diferentes tomadores de decisão para sentarem e trabalharem juntos e enfrentar aqueles que resistirão a esse processo disruptivo por não desejarem perder seus privilégios ou por estranharem o surgimento de uma nova cultura.
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